Tenho ideia de ter tomado a decisão de querer ser cremada quando morrer depois de ter visto a cena de um filme (creio que) de Hitchcock. O pedaço de história que retive (aos doze ou treze anos) foi o da aflição insuportável sentida por um desgraçado estendido numa espécie de maca, prestes a ser autopsiado (se a memória não me engana...), plenamente consciente de que o iam cortar aos bocadinhos (ou de que iam desligar a máquina?!), sem conseguir comunicar que estava vivo aos que o rodeavam. O que acabou por o livrar da morte iminente foi uma lágrima e o olhar mais atento de alguém que viu a gota deslizar pela cara.
Há pouco mais de um ano, «regressei» a esta aflição, através de um episódio do CSI (o de Las Vegas, claro!). Gil Grissom descobriu que um médico russo, refugiado nos Estados Unidos, raptava mulheres e entretinha-se a apurar a sindroma "Locked-in". Mantendo a consciência e cognição das vítimas, o carniceiro infligia-lhes lesões no tronco cerebral, provocando-lhes paralisia quase total, limitando-lhes a comunicação aos movimentos dos olhos.
No sábado passado, encontrei esta fantástica notícia no
Expresso (que pode ser lida
aqui). O neurologista belga Steven Laureys aplicou a
Coma Recovery Scale-Revised (
CRS-R), com resultados positivos, a Rom Houben, um homem que viveu o cativeiro de mais de duas décadas no interior do seu próprio corpo, incapaz de comunicar com o exterior, após um acidente de viação.
A mãe de Houben decidiu recorrer ao Coma Science Group, grupo de investigação da Universidade de Liège criado e dirigido por Laureys, considerado referência mundial na matéria. Através da utilização de aparelhos de ressonância magnética funcional, estimulação profunda do cérebro e tomografia por emissão de positrões (PET), entre outros, o PET permitiu diagnosticar a síndroma "Locked-in". O paciente começou a ser capaz de responder "sim/não" com um movimento do pé. No centro de reabilitação em Zolden, a 80 quilómetros de Bruxelas, Rom Houben continuou sujeito a intensa terapia sensorial, ao mesmo tempo que se desenvolviam e aperfeiçoavam tecnologias que agora lhe permitem comunicar com o exterior através de um ecrã táctil e de uma terapeuta.