Para algumas personagens de Quando os Lobos Uivam (1958) - romance censurado, de Aquilino Ribeiro, sobre a sageza dos beirões em defesa dos baldios, durante ditadura - o mundo, na altura, «andava torto». Nos tempos que correm, em que o «diz que disse» parece cada vez mais propriedade do poder jurídico e judicial, afigura-se, no mínimo, curiosa a actualidade da obra e deste excerto.
Aquilino Ribeiro (1958). Quando os lobos uivam. Lisboa: Bertrand. pp. 299-300.- A seu ver, o mundo andava torto, uns tinham muito e outros não tinham nada; uns morriam à fome e outros de indigestão. Mas, verdade seja, que não aconselhava ninguém a usar da violência. Quanto a ser herege, toda a gente sabe que não vai à missa nem se confessa. Mas não é homem para atirar uma pedra a um gato...
- Nunca lhe ouviu dizer que a religião era uma impostura e os padres os funcionários desta impostura?
- Não, senhor.
- Pois está-lhe imputado nos autos - proferiu batendo no imenso bacamarte do processo. - Mas se lho ouviu, acha que destoa tal dito na boca do réu?
Bruno Lêndeas torceu-se, esboçou um esgar, e acabou por dizer:
- Não, senhor.
- Muito bem! E este outro dito: Cristo nasceu nas palhas, para nos mostrar que somos todos iguais. Que sociedade é esta onde uns têm tudo e outros não têm nada? - ouviu-lhe?
- Também não, senhor.
- Sabe se lia certos autores condenados pelo bom senso, o Estado, e a tradição religiosa, como Lenine, Karl Marx...?
- De Carlos Marques não sei. De Carlos Magnus vi-lhe o alfarrábio na mão.
Os senhores juízes soltaram-lhe uma gargalhada estrepitosa, menos ao alegre desenfado do que para confirmação de suas conspícuas inteligências. O representante do Ministério Público dobrou a cabeça, encantado:
- Estou satisfeito.
Imagem: Artur Bual (s.d.). Aquilino - Fonte: Aqui













