sábado, 14 de Novembro de 2009

Quando os lobos uivam...



Para algumas personagens de Quando os Lobos Uivam (1958) - romance censurado, de Aquilino Ribeiro, sobre a sageza dos beirões em defesa dos baldios, durante  ditadura - o mundo, na altura, «andava torto». Nos tempos que correm, em que o «diz que disse» parece cada vez mais propriedade do poder jurídico e judicial, afigura-se, no mínimo, curiosa a actualidade da obra e deste excerto.
- A seu ver, o mundo andava torto, uns tinham muito e outros não tinham nada; uns morriam à fome e outros de indigestão. Mas, verdade seja, que não aconselhava ninguém a usar da violência. Quanto a ser herege, toda a gente sabe que não vai à missa nem se confessa. Mas não é homem para atirar uma pedra a um gato...
- Nunca lhe ouviu dizer que a religião era uma impostura e os padres os funcionários desta impostura?
- Não, senhor.
- Pois está-lhe imputado nos autos - proferiu batendo no imenso bacamarte do processo. - Mas se lho ouviu, acha que destoa tal dito na boca do réu?
Bruno Lêndeas torceu-se, esboçou um esgar, e acabou por dizer:
- Não, senhor.
- Muito bem! E este outro dito: Cristo nasceu nas palhas, para nos mostrar que somos todos iguais. Que sociedade é esta onde uns têm tudo e outros não têm nada? - ouviu-lhe?
- Também não, senhor.
- Sabe se lia certos autores condenados pelo bom senso, o Estado, e a tradição religiosa, como Lenine, Karl Marx...?
- De Carlos Marques não sei. De Carlos Magnus vi-lhe o alfarrábio na mão.
Os senhores juízes soltaram-lhe uma gargalhada estrepitosa, menos ao alegre desenfado do que para confirmação de suas conspícuas inteligências. O representante do Ministério Público dobrou a cabeça, encantado:
- Estou satisfeito.
Aquilino Ribeiro (1958). Quando os lobos uivam. Lisboa: Bertrand. pp. 299-300.
Imagem: Artur Bual (s.d.). Aquilino - Fonte: Aqui

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Hercules Poirot, o CSI (do AXN), Gil Grissom e um amuo











De Agatha Christie li tudo e Poirot é o culpado. The man in the brown suit será, quase de certeza, "O" livro policial. Li-o de uma assentada, nos tempos de estudante-adolescente-inconsciente em que fazia directas de leitura pela noite fora sem ficar intratável no dia seguinte. Estas confissões literárias surgem a propósito de uma outra, televisiva, e para dar conta de uma irritação que exporei mais adiante.
Sou fã incondicional do CSI. Não do de Miami - enerva-me a pose "à Dirty Harry do século XXI", de Horatio Caine/David Caruso.
Simpatizo mais com o CSI New York, principalmente com o lado esgrouviado de Danny Messer (Carmine Giovinazzo). Mas a série que me levou a ver o CSI Miami, o CSI New York e que me faz largar tudo para me refastelar no sofá à frente da televisão é o CSI de Las Vegas, Nevada.
Que tem Hercules Poirot que ver com o CSI? A minha personagem favorita desta série, interpretada pelo brilhante William Petersen. Salvaguardadas as distâncias devidas, o carisma, a subtileza, o método, a clareza de raciocínio e, sobretudo, a capacidade de entender a natureza humana de Gil Grissom  lembram-me o detective belga. Depois, há a (maior) densidade psicológica do homem, cada vez mais complexa, de episódio para episódio: a imperfeição física, primeiro sugerida e depois explícita (a otosclerose que descobre ter herdado da mãe); a ligação inusitada às ciências (ditas) exactas  e às artes (influência do pai, biólogo, e da mãe, dona de uma galeria de arte?); a minúcia associada à formação académica numa área impopular (Gilbert Grissom é entomólogo forense); a aguçada curiosidade científica; e o elevado grau de humanismo.
Finalmente, a razão de ser deste escrito: a minha enorme irritação pois Grissom anunciou anteontem, no AXN, que vai abandonar "O" CSI. Amuei.
Imagens: Google.

Cotejos: músicos-pintores

A música é tradicionalmente tida como arte temporal e a pintura costuma ser incluída no grupo das artes espaciais. Anulando a categorização, a Rolling Stone publicou, há tempos, alguns trabalhos de músicos famosos, na área da pintura. Aqui ficam obras de David Bowie, Tony Bennett e Ronnie Wood (dos Rolling Stones). O de Tony Bennett parece-me mais fraquinho...
Pelo que vi, concluo que fizeram bem quando optaram pela música.




David Bowie (2000). Portrait of J. O.


Tony Bennett (1993). Duke Ellington.


Ronnie Wood (s.d.). Título desconhecido.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Gente vulgar / We're just ordinary people

We're just ordinary people
We don't know which way to go
'Cause we're ordinary people
Maybe we should take it slow (take it slow)
This time we'll take it slow (take it slow)
This time we'll take it slow.
*
This ain't a movie no
No fairy tale conclusion ya'll
It gets more confusing everyday
Sometimes it's heaven sent
We head back to hell again.
**
Somos apenas gente vulgar
Não sabemos que caminho tomar
E porque somos gente vulgar
Talvez devessemos ir com calma 
Desta vez vamos com calma
Desta vez vamos com calma.
**
Não, isto não é um filme
Não há final feliz de conto de fadas
Dia-a-dia a confusão aumenta
Às vezes, é o paraíso na Terra
No momento seguinte, voltamos ao Inferno.
(Tradução Austeriana)


segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Influências: Nietzsche, Kant e Sinatra



domingo, 8 de Novembro de 2009

It's a wall. And the wall is death.



É uma parede. E a parede é a morte.
Ilegível rascunho de mal-estar, na imagem
e pós-imagem da vida -
e os muitos que aqui estão
embora nunca nascidos,
e aqueles que falariam
para se darem à luz.
Paul Auster (2002). Poemas Escolhidos. Trad. Rui Lage. Famalicão: Quasi. p.74.
*
Na tarde de 9 de Outubro, Schabowski recebeu um comunicado, passou-lhe os olhos por cima e leu-o em voz alta aos jornalistas. O escrito autorizava os alemães de leste a viajar para o ocidente sem restrições burocráticas. Imediatamente, um repórter americano perguntou a Schabowski  pela altura da entrada em vigor daquela disposição. Schabowski olhou de relance para o documento e (sem enxergar que ia mudar a História) declarou: «Sofort, unverzüglich.»  [«Já, imediatamente»].
Já apreciava o vocábulo «sofort». Desde então, também fiquei a gostar muito da palavra «unverzüglich».
Imagem: Aqui.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Os Itens da Inovação e da Criatividade nos Estatutos das Carreiras dos Ensinos Básico, Secundário e Superior



Todos estaremos eventualmente de acordo quanto ao facto de que em qualquer avaliação deverá existir qualidade processual e de objectivos. Em teoria, também será consensual a ideia de que o intuito de obter a tal qualidade implicará seleccionar entidades e/ou itens a partir do cumprimento desses processos - excluindo o que / quem não se enquadra nos parâmetros estabelecidos.
Sendo verdade que a equidade tem que ser um dos princípios básicos em matéria de avaliação, em abstracto, há igualmente que convir que qualquer critério quantitativo fixo não dá margem para a criatividade e para a inovação, e que estes são elementos essenciais nas áreas dos ensinos básico, secundário e superior. O busílis de incluir nos critérios de avaliação (de processos, docentes, estudantes e instituições) itens que ponderem o valor da inovação e da criatividade é o de acrescentar o factor da subjectividade à avaliação.
Ao longo destes anos de União Europeia, fomo-nos deparando com circunstâncias mais ou menos ridículas ligadas à rejeição de produtos que não iam ao encontro das directrizes europeias - apesar de alguns desses produtos se afigurarem de excelente qualidade. Quem não se lembra das polémicas sobre os enchidos, os doces conventuais, as castanhas em papel de jornal ou o tamanho da fruta. Se em relação a alguns destes produtos, as consequências das determinações rígidas da UE acabaram por perecer, levando à procura da razoabilidade (designadamente em função dos caractéres distintivos inerentes à cultura de cada país), o mesmo não se pode afirmar relativamente ao ensino.
No caso do Ensino Superior, o «entusiasmo» que invadiu as universidades relativamente aos benefícios (quanto a padrões de qualidade) a tirar do Processo de Bolonha colocou na penumbra repercussões negativas, entre elas a marginalização das questões (fundamentais) ligadas  à inovação e à criatividade nos critérios de qualidade. De facto, uma e outra implicam incontornavelmente subjectividade. Porém se para a fruta e para os enchidos o valor das "idiossincrasias" culturais de cada país acabou por se afirmar mais valia quer no plano da identidade colectiva, quer para os mercados interno e externo, o peso destes factores afigura-se redobrado quando falamos de ensino / educação.
Tratando-se de questões substantivas, do ponto de vista do desenvolvimento sócio-cultural, económico e humanístico de cada nação, é fulcral que tanto o Estatuto da Carreira Docente dos Ensinos Básico e Secundário como o das Carreiras Docentes do Ensino Superior incluam os itens da criatividade e da inovação.
Sobre isto, até já ouvimos falar - a European University Association chegou a elaborar um projecto sobre o assunto. Todavia, como diria Ricardo Araújo Pereira, até à data, eles «falaram, falaram, falaram, mas não fizeram nada.». Urge discussão séria. E operacionalização também.
Imagem: Trinity College. Fonte - aqui.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

George Steiner, em Viseu



Imperdível.
George Steiner vai participar na 5ª Conferência Internacional de Filosofia e Epistemologia do Instituto Piaget. A iniciativa, que terá lugar em Viseu, de 23 a 25 de Novembro, reunirá especialistas de diferentes áreas, com o propósito de produzir reflexão interdisciplinar, bem como nos campos específicos da neurologia, da filosofia e dos estudos literários e culturais, centrada na temática da condição humana, a partir das obras do neurocientista António Damásio, do filósofo Espinosa, do pensador George Steiner e do escritor Miguel Torga.
Imagem: Google

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

A little bit of Joe...

Consegui bilhetes para um concerto deste «rapaz» há uns bons anos atrás, na Aula Magna, e foi do melhor a que assisti até hoje. Um virtuoso intemporal.
 "Let's have a little bit of Joe... stepping out into the light."

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Morreu Claude Lévi-Strauss


Une société est faite d’individus et de groupes qui communiquent entre eux. (...) [L]a culture ne consiste donc pas exclusivement enformes de communication qui lui appartiennent en propre (…), mais aussi – et peut-être surtout – en règles applicables à toutes sortes de «jeux de communication».
Claude Lévi-Strauss (1985). Anthropologie Structurale. Paris: Plon.: 352-3.
*
A propósito de Tristes Tropiques.
 
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